terça-feira, outubro 15, 2013

‘A literatura me fez compor melhor’, diz Tico Santa Cruz

Jornal A Crítica conversou com o cantor, um dos nomes confirmados na 1ª Feira de Livros de Manaus

Nomes como Arnaldo Antunes, Gabriel O Pensador e Tico Santa Cruz podem não ser nenhuma novidade quando o assunto é música brasileira, mas chega a ser motivo de surpresa, para quem não acompanha a carreira deles de perto, saber que os músicos também se aventuram pelo campo da literatura e trazem até prêmios nos seus currículos de escritores.

São esses “improváveis” autores que vão dividir as atenções com gente veterana na área durante a 1ª Feira de Livros de Manaus, marcada para acontecer de 25 de outubro a 3 de novembro, no Manaus Plaza Centro de Convenções. Nesse período, além dos músicos, também vai passar pela cidade uma turma formada por Luís Eduardo Matta, José Castello, Gustavo Cerbasi, Ignácio de Loyola Brandão, Guilherme Fiuza, Marcos Alvito e Stella Maris Rezende.

Em entrevista ao BEM VIVER, o vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz, falou sobre a sua experiência com a escrita e comentou temas que têm causado polêmica no meio literário. Ele é autor de “Clube da Insônia” (2012) e “Tesão” (2013), lançados pela Belas-Letras.

Quando você sentiu necessidade de se dedicar à literatura?
Escrevo desde a adolescência. Tenho até hoje livros e cadernos do tempo de escola, quando eu passava as aulas escrevendo, imaginando coisas, criando histórias. Então, eu já exercia essa forma de expressão através da palavra escrita, ainda que minha proximidade não fosse de maneira profissional. Em 2004, criei um blog chamado “Clube da insônia”, onde passei a postar crônicas, textos críticos e análises existenciais motivadas por músicas ou coisas do dia a dia. Até que veio a editora e decidiu compilar os melhores textos.

Como reage à surpresa das pessoas quando descobrem que você também escreve?
Essa surpresa só vem mesmo de quem não acompanha minha carreira e só me conhece pelo superficial do rádio e da TV. Hoje em dia, com as redes sociais, tem mais gente que acompanha o que escrevo do que a minha música. Mas sei que fica difícil acompanhar minhas atividades paralelas ao Detonautas, até porque não uso isso como marketing pessoal.

Como é essa relação entre músico e escritor? Uma coisa atravessa a outra?
Na música, o meu lado escritor aparece nas composições da banda. A literatura me ajudou a amadurecer as letras, que poderiam parecer infantis e imaturas anteriormente. Quando comecei a levar a literatura a sério, ela me ajudou a compor de formas mais interessantes.

Você falou em atividades paralelas... pode explicar melhor o que você faz fora do Detonautas?
Em 2007, criei um grupo chamado “Voluntários da Pátria”, onde eu e outras pessoas percorremos presídios, universidades e escolas promovendo saraus de literatura e música em presídios, universidades e escolas, desde 2007. Desde então, posso dizer que tenho lido mais do que escutado música.

Como é o seu processo de escrita? Alguma inspiração específica?
Não tenho nenhuma rotina pré-determinada; quando dá vontade, pego um caderno ou ligo o computador, no avião ou dentro do ônibus, durante das viagens. Não mantenho uma rotina porque não tenho um compromisso de produção, todos os textos são espontâneos e o contrato com a editora me permite lançar conforme eu vá achando o material interessante. Mas escrevo praticamente todos os dias, inclusive nas redes sociais.

O que você está lendo atualmente?
Tenho um livro para levar nas viagens, outro para ficar no banheiro e outro na cabeceira da cama. Na estrada, geralmente leio biografias. Terminei há pouco uma biografia do Black Sabbath e o “Inferno”, o novo do Dan Brown. Leio de tudo, desde Saramago, meu ídolo na literatura, até os clássicos nacionais, que reli praticamente todos depois da escola.

Recentemente, o grupo “Procure Saber” reanimou a discussão sobre as biografias não-autorizadas e a necessidade (ou não) de remuneração dos biografados. O que você pensa sobre isso?
É uma questão que vale a pena ser debatida. Acho bem mais interessante ler uma biografia quando ela não é autorizada, mas só quando é feita por um biógrafo que tenha o cuidado de não inventar fatos. Sou contra a autorização prévia. O artista tem que estar consciente de que ele faz parte de um patrimônio público e, de certa forma, está abrindo sua vida privada para as pessoas.

E sobre a declaração do Paulo Coelho ao recusar o convite para ir à Feira de Frankfurt? Ele disse que a lista de autores brasileiros só tinha “amigos de amigos”. A literatura brasileira está cheia de panelinhas?

Não tenho tanto conhecimento assim. Minha relação com a literatura e feiras da área não me dá profundidade para fazer uma leitura sobre isso. Panela existe em todo lugar, inclusive na música, onde emissoras escolhem seus artistas favoritas e não valorizam os outros que existem.

Os seus leitores já podem esperar algum lançamento próximo?
Sim, será o meu primeiro romance policial, “Pólvora, chumbo e sexo”. É um livro que escrevi há uns três anos e até só havia postado alguns capítulos no blog. Também quero fazer uma versão dele em HQ, porque é um livro com uma pegada de Tarantino e Oliver Stone.