segunda-feira, outubro 07, 2013

Tico, mostra que debate político no rock pode ser saudável

ROCK BRASILEIRO - 04.outubro.2013 07:05:31

Tico Santa Cruz, do Detonautas, mostra que debate político no rock pode ser saudável
Por Marcelo Moreira

Em tempos onde o linchamento virtual se tornou moda e o politicamente correto avança para cercear o direito (e a vontade) de as pessoas debaterem, eis que um artista engajado e articulado se manifesta sem apelar para polêmicas vazias e sem partir para a pura desqualificação dos críticos e jornalistas. Tico Santa Cruz, vocalista da banda carioca Detonautas Roque Clube, é formado em ciências sociais e é um ativo militantes de causas sociais e colaborador de ONGs (organizações não governamentais) do Rio de Janeiro.

Em sua participação no Rock in Rio 2013, o vocalista, que participou do tributo a Raul Seixas, fez um rápido discurso político, criticando o governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral (PMDB) e apoiando as várias manifestações que pipocam na cidade do Rio, entre as quais se destaca a dos professores da rede municipal de ensino, em greve contra a aprovação de um plano de cargos e salários.

Entretanto, na opinião do Combate Rock, o músico escorregou ao defender a possibilidade de pessoas participarem de protestos com máscaras, afirmando ser um direito constitucional como um meio de expressão. Era mais uma farpa contra o governo fluminense, que proibiu, a exemplo do Distrito Federal, que pessoas mascaradas participem de protestos como tentativa de coibir o vandalismo promovido por grupelhos políticos que se infiltram em manifestações pacíficas. Eu o critiquei neste espaço e disse que ele fazia a apologia da violência ao defender os mascarados nos protestos.

De forma educada e incisiva, Tico Santa Cruz questionou a minha crítica por meio de um diálogo no Facebook. Disse que não fez apologia à violência ao defender os mascarados e reafirma que é um direito do cidadão se proteger em manifestações contra eventuais retaliações da Polícia Militar contra supostos líderes dos movimentos.

Entendo que essa preocupação é legítima, mas que, ainda assim, não é suficiente para se contrapor, em minha opinião, à decisão de tentar conter os protestos violentos e gratuitos de uma minoria supostamente política que pretende tão somente banalizar movimentos democráticos – aliás, a presença de tais bandidos nos protestos acabam por prejudicar os próprios eventos elaborados para serem pacíficos e democráticos.


A proibição de mascarados nos protestos, ainda que excessiva, é a maneira até agora encontrada para tentar evitar que a cidade seja depredada e que cidadãos inocentes, que nada têm a ver com o protesto, ou mesmo os que queiram protestar livre e pacificamente, sejam pegos no fogo cruzado de vândalos e PMs. É uma medida, ainda que excessiva e (tomara que) temporária, é necessária para evitar maiores distúrbios.

O fato é que a ação e violenta e desmiolada de grupelhos políticos é desproporcional à importância das reivindicações e ao próprio clima político do país – não há regime de exceção, não há opressão política e a democracia impera. A PM reprime com violência as manifestações? Sim, e isso precisa ser combativo e denunciado, com a punição dos maus policiais e comandantes.

Há excessos na repressão e na contenção de protestos por conta da profunda incompetência na gestão da própria força policial e na imensa incompetência administrativa dos governos estaduais, em todos os níveis e áreas de atuação, principalmente nos governos de São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. É clara a falta de comando das forças policiais nos Estados citados.

O maior exemplo foi dado nesta quinta-feira, em vídeo divulgado pelo jornal O Globo, mostrando um policial forjando provas contra um garoto – colocou morteiros explosivos em um local com o intuito de incriminar o garoto durante a manifestação de professores no centro do Rio de Janeiro no dia anterior. Esse é o tipo de comportamento e procedimento da PM fluminense?

Seja como for, ainda assim acredito que os bandos de vândalos que se escondem atrás das máscaras precisam ser contidos, presos e processados. A proibição de máscaras é uma tentativa de coibir a ação destes grupos violentos, ainda que a medida fira algumas suscetibilidades.

Existem acadêmicos, integrantes de grupos políticos de esquerda e mesmo jornalistas que defendem o uso de máscaras nas manifestações como exercício de cidadania e liberdade de expressão, ainda que sirvam para esconder os vândalos e os bandidos – e ainda que sirvam para facilitar as depredações e fugas. É um pensamento perigoso e, no limite da análise, irresponsável, ainda que estejamos sujeitos a uma PM despreparada, incompetente, medrosa e profundamente violenta.

Assim como foi criticado neste espaço, creio ser interessante publicar uma parte do diálogo que travei em alto nível com Tico Santa Cruz. Resume bem o pensamento dele a respeito do assunto tratado. Mesmo discordando dele em quase tudo, e concordando em tese com algumas coisas, reitero que o considero um artista bem articulado e com cérebro, coisa rara no rock brasileiro nos últimos tempos:

"Sejamos claros – ninguém pode ser a favor de depredações ou atos de vandalismo – mas sejamos realistas também, qual foi a revolução real que mudou um sistema apenas com pessoas andando de branco por uma avenida? A violência está inserida dentro do contexto das mobilizações quando se parte do princípio de que ela seja uma reação a violência do Estado.

O Estado que usa da força policial mascarada e sem identificação para violentar o cidadão de bem, que não está quebrando nada e nem querendo destruir o patrimônio público. No entanto ao entrar numa escola pública ou num hospital público, encontra o patrimônio público destruído por estes covardes que não querem ser questionados.

Como coloquei no meu discurso no Rock in Rio, se eles quisessem mudar alguma coisa realmente, colocariam em prática as reformas que precisamos para que possamos ter mudanças reais nessa tal “democracia” Brasileira. Mas o que eles fizeram? Aprovaram uma lei – no Rio de janeiro – onde se proíbem máscaras – enquanto o Governador faz acordos espúrios com uma empreiteira que agora esta sendo investigada por desvio de milhões de reais de obras na cidade, incluindo o PAC.

Aqui no RJ onde os professores estão sendo violentados, a presença dos Black Blocs só ocorreu após dias seguidos de violência gratuita da PM, dando tiros de bala de borracha e jogando bombas e gás em gente que deveríamos proteger. Afinal, qual é o limite da tolerância e da passividade? Devemos apanhar calados então! E não reagir as agressões de quem está sendo mobilizado para reprimir movimentos justos? Não defendo violência, mas não sou hipócrita."