quinta-feira, março 27, 2014

Tico rebate sua fama de artista polêmico

Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas Roque Clube, rebate sua fama de artista polêmico
Por Brenda Melo Duarte

Luis Guilherme Brunetta Fontenelle de Araújo, “o idiota no país dos espertos”, como se autodefine  no Twitter, ou simplesmente Tico Santa Cruz. Vocalista do Detonautas Roque Clube há 17 anos, escritor, pai, ex-participante de reality show e ativista (Wow!)… Ao lado de sua banda, ele se prepara para lançar um álbum independente de 18 faixas, com 11 composições inéditas, depois de seis anos do último CD – o material, segundo Tico, deve estar pronto até abril.

Desde 2010, a banda abastece os fãs com músicas disponibilizadas para download na internet, mas recentemente decidiu interromper essa estratégia para reunir canções para o álbum. A primeira faixa a ser trabalhada é Acredite no Seu Coração, que tem uma pegada de autoajuda.

“Sempre me identifiquei com compositores que trabalhavam com essa linha de fortalecer as pessoas e dar algum incentivo para quem está ouvindo. É uma maneira de elas se identificarem e e seguirem em frente”.

No próximo sábado, o Detonautas estará em Santos e os fãs da banda vão poder conferir algumas das músicas inéditas no evento Budweiser Zero 13 Festival, que ainda vai trazer Natiruts, Forfun e Alma Djem. Nomes da região confirmados são Zimbra, Dom Domingues, TR3VO, Mendez e Fernanda Fernandes.

Além de ser conhecido pelo trabalho com o Detonautas, ele é famoso nas redes sociais por expressar suas opiniões sobre os assuntos mais diversos – muitas vezes, criando polêmicas. E se orgulha de ter conquistado quase 500 mil seguidores no Facebook apenas com ideias, debates. Mas garante que não vê problema no rótulo de polêmico que carrega desde que decidiu que em cima do muro não era lugar para ele,ou seja, desde sempre.

Há quem adicione o termo grosseiro à personalidade do carioca de 36 anos, só que vamos combinar que alguém que canta “ainda vou te levar pra outro lugar além do sol, do mar, onde eu possa te ter, te amar” não pode ser tão ácido assim.E não é. Pelo menos, quando o assunto não está relacionado à corrupção, sacanagem do poder público, erotização precoce, monocultura, protestos, legalização da maconha… Porque aí ele não perdoa e solta o verbo.

“Ser polêmico é muito relativo. É o peso que as pessoas dão à minha opinião, na verdade. Faço posts relacionados com a minha maneira de enxergar as questões políticas, sociais… E o pessoal rebate, apoia… Para mim, isso é positivo, pois coloca em pauta temas importantes e faz com que a galera pense”.

Lepo Lepo

O último post de Tico que bombou foi o da sua análise do hit do Carnaval, a música Lepo Lepo, do grupo Psirico. Em 24 horas, a publicação, no Facebook, já tinha quase 40 mil curtidas, 5.400 comentários e mais de 14 mil compartilhamentos.

Em resumo, ele fez uma analogia entre cada trecho da canção e a realidade do nosso povo. Exemplo: o verso “se é dinheiro ou é amor ou cumplicidade?” se transformou em “diante do panorama atual onde as pessoas não valem o que são, mas apenas o que têm, saber se uma mulher está com você por dinheiro ou amor é algo muito importante. Enquanto 99% da música brasileira estão no momento da ostentação,
essa canção coloca em questão os valores da sociedade. O que vale mais? Amor ou bens materiais?”

Tico garante que o texto não é irônico. ““A análise da música em si não é uma ironia, a ironia é eu estar fazer isso. Não estar recriminando a música e vendo da maneira mais óbvia, como eu mesmo geralmente me comporto quando trato de um assunto como esse”.

E foi sobre vulgaridade outra publicação recente de Tico que rendeu muitas curtidas e comentários. Ele compartilhou uma reflexão do filho, Lucas, de 12 anos, dizendo “as crianças estão perdendo a inocência tão cedo  com a superexposição cultural que explora a sexualidade, que, daquia pouco, serão comercializadas camisinhas do Patati Patatá”.

O pai do Lucas e da Bárbara comenta que a erotização precoce das crianças o incomoda desde os tempos de “vai ralando na boquinha da garrafa, é na boca da garrafa, do É o Tchan!, nos anos 90, quando ainda estudava Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Na época, ele defendeu teses de que a exposição das crianças a essas músicas resultava em um estímulo sexual precoce e, consequentemente, ao salto para a vida adulta antes da hora. Moralista? Ele diz que nem um pouco. “Não quero que a minha filha de 4 anos ouça e reproduza isso dentro de casa, sem saber o que está fazendo, que perca a inocência na hora errada. Acho que a gente tem de proteger as crianças”.

Tirando proveito

Aí você pensa: um reality show é lugar para quem luta contra esses apelos? Calma, ele explica o que o levou a entrar em A Fazenda, da Record, em 2010. “Aprendi com o Raul Seixas que a gente tem que usar as armas do inimigo. Eu acho uma burrice a elite intelectual que fica se criando em guetos e abre mão de espaços para falar com a massa. Se colocam pessoas inteligentes em um reality show, podem surgir debates curiosos, como já aconteceu no Big Brother Brasil, no qual já se falou sobre homofobia e outras polêmicas”.

A seguir, confira a opinião de Tico sobre:

Música brasileira atual: “A gente está vivendo uma crise cultural muito grande em função da falta  de educação e conhecimento. As pessoas estão emburrecendo e a cultura está contribuindo. Esses artistas da turma da onomatopeia não se preocupam com nada além de fazer sucesso e ganhar dinheiro. Não vou generalizar, obviamente, e também não tem nada de errado em querer faturar, o problema é  quando isso se torna um monopólio, uma monocultura. A gente que trabalha com música e que tem um apego fica descrente no que vai acontecer. Mesmo quando se produz para o simples entretenimento é preciso ter o mínimo de sacada. Mamonas Assassinas era uma banda muito divertida, o Raimundos também usava bastante duplo sentido e não era débil mental. Era engraçado, assim como o Falcão, do brega. Estamos caminhando para uma coisa muito vulgar e no sentido ruim mesmo da palavra”.

Maconha: A legalização é uma questão social e política que não tem nada a ver com o uso. A maconha é proibida, porque assim rende muito mais lucro para quem vende. Legalizar não é liberar, é criar regras. A questão deve ser mantida  principalmente pelo olhar da ciência. O que a ciência e os médicos têm  a dizer sobre isso?  O que os políticos têm a dizer  não me interessa. Eles  querem de alguma maneira desfrutar do dinheiro e do poder que o comércio ilegal oferece a eles.

Pirataria: “Não considero o download de músicas na internet pirataria. O errado é quem transforma aquilo ali em um produto e vende. É uma maneira de oferecer a sua música, sua arte, para quem não tem condições financeiras”.

Censura: “O Detonautas poderia ser uma banda muito maior se ficasse em cima do muro. Sofremos censura, sim, boicote, mas conseguimos sobreviver e criar um público fiel”.

Atentado: “Eu já fui ameaçado de morte. Colocaram carta anônima no quarto do hotel. Meu carro, uma vez, foi alvejado por tiros… Não sei de onde veio isso e não me intimido. Todo mundo vai morrer algum dia. Se eu morrer, pelo menos, será por um motivo em que eu acredito”.

Política: “Sempre procuro me posicionar e levantar pautas a respeito das questões políticas do país. É importante desenvolver e alimentar o censo crítico. A minha função como artista é tentar fazer com que as pessoas entendam qual é a função delas. Me incomoda o fato de terem muitos artistas no Brasil que se omitem em relação à política. Artistas com grande potencial de massa tipo Luan Santana, Ivete Sangalo, Claudia Leite e Daniel. Todos esses são respeitados, têm um grande público, poderiam falar para milhões de pessoas, milhões de fãs, e preferem não falar sobre o assunto. Eles não precisam  se posicionar politicamente contra ou a favor de algum partido. Acho que apenas  falar didaticamente com o público sobre esses assuntos desperta o interesse de pesquisar e de desenvolver o conhecimento”.

Copa do Mundo: “O maior benefício que a Copa do Mundo trouxe para o Brasil foi fazer com que despertasse esse sentimento de indignação das pessoas e que levasse todos os problemas do Brasil a serem expostos para o mundo inteiro. Mostrar o quanto a gente é desorganizado, o quanto nossos políticos são corruptos, os nossos estádios são superfaturados, nossas obras todas estão atrasadas… Vai mostrar para o mundo inteiro que aqui é um país onde as pessoas estão de brincadeirinha com o poder”.

Literatura: “Para o meio do ano, vou lançar o meu terceiro livro, Pólvoras, Fumo e Sexo. É um romance policial, em que os capítulos foram publicados no meu blog em 2009 e a leitura atraiu 400 mil pessoas”.

Chorão: “É uma figura tão importante no Brasil que, naturalmente, o lugar dele está guardado… Ele vai estar sempre ligado a essa Cidade e ao que fez pelo rock brasileiro”.

Chorão Skate Park: “Não faltou fazer nada, conseguimos concluir tudo o que foi pedido em tempo recorde. O dono do terreno, por uma questão particular, não aceitou nossa proposta… Agora o melhor a ser feito é sempre manter a pista que leva o nome dele no Emissário (Parque Municipal Roberto Mário Santini) em bom estado”.

Serviço: O Budweiser Zero 13 Festival acontece no dia 29, às 21 horas, no Portuários (Rua Joaquim Távora, 424, Santos). entradas a R$ 30 (meia) e R$ 60 (Inteira). Informações sobre os pontos de venda pelo tel. 3252-6711.