segunda-feira, junho 06, 2011

Entrevista com o Tico

“A MINHA GERAÇÃO TEM UM PAPEL PATÉTICO NA HISTÓRIA POLÍTICA E SOCIAL QUE A ARTE PODE REPRESENTAR NO BRASIL” Por Eduardo Sá, 01.06.2011

Além de músico Tico Santa Cruz, da banda Detonautas, é um artista que sustenta opiniões que muitos do meio cultural no Brasil evitam se posicionar. Em entrevista ao Fazendo Media ele fala sobre as consequências da revolução tecnológica para o meio musical com os downloads na internet, além de criticar o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição). Como ex colaborador do jornal O Dia, Tico também faz uma análise sobre a mídia e diz que a nova geração de artistas não tem cumprido seu papel político no cenário nacional.

Como você vê a música no meio de toda essa revolução tecnológica e os downloads na internet?

Eu acho que isso de certa forma facilitou, descentralizou o conteúdo, mas ela transformou a dinâmica do mercado. Então as gravadoras que antigamente detinham todo o poder de disseminar o conteúdo através dos cd’s, do material físico, dos lp’s antes e dos próprios dvd’s hoje em dia, demoraram muito tempo para se adaptar e perderam totalmente o trem. Então criou um paradoxo nessa história, que é o lance da internet: ao mesmo tempo que ela disponibiliza música livre, e isso facilita bastante ao artista chegar até o público sem nenhum intermediário, por outro lado, na minha opinião, ela deixou um vácuo de superficialidade pois as pessoas consomem tudo muito rápido e não se aprofundam em quase nada. Como artista eu acho que isso facilitou bastante, pelo menos para a gente como banda, que já tem um certo conhecimento, um certo mercado no Brasil, tem um acesso grande aos fãs. Hoje em dia não precisamos mais de ninguém dizendo o que deve ou não ser feito, a gente mesmo traça uma estratégia e coloca na ativa na internet.

Do ponto de vista financeiro, como vocês fazem para se manter dessa forma?

Financeiramente somos de uma geração que não tem nenhum tipo de ganho com venda de fonograma. O primeiro disco do Detonautas, por exemplo, vendeu 100 mil cópias e financeiramente foi positivo, mas no segundo disco já não existia essa demanda de venda. Embora exista ainda algum público que queira consumir, eu acho que é muito mais como se fosse um material específico, como se fosse um livro, um suvenir qualquer, que as pessoas guardam para ter como lembrança e não mais como fonte principal. É apenas mais uma fonte, e não mais a única fonte. Então financeiramente hoje em dia não tem vantagem nenhuma, ao contrário, o disco a gente manda fazer 20 mil cópias e distribui gratuitamente nos shows e nas entradas, na internet.

Mas como é essa estratégia de sustentabilidade?

Exclusivamente pelos shows, aonde a gravadora tentou interferir também. A gente até tentou um formato que foi a primeira gravadora aqui no Brasil, a Sony, que tentou esse modelo introduzindo essa dinâmica, mas eles são engessados demais. Tudo demora muito, para você conseguir fazer uma ação tem que pedir autorização para um, de um departamento pede para outro, e assim por diante, quando você vai ver já passou o time e acabou. A internet não permite hoje mais esse tipo de burocracia, ou você faz e coloca em prática ou então já era.

Você está acompanhando o debate no Ministério da Cultura, sobre direito autoral? Como você vê esse tema, dentro desse contexto do nosso papo?

Os direitos autorais e a maneira como isso foi conduzido até hoje foi sempre de uma maneira muito obscura, não existe uma clareza com nenhuma instituição pública ou outra qualquer que trabalhe esse tipo de repasse de verbas ou que movimente dinheiro público. Ainda que seja direcionado aos autores, é sempre trabalhando em benefício próprio, sempre desorganizado, sem nenhuma clareza com os artistas, então é uma caixa preta que ninguém quer mexer e todo mundo sabe que quando abrir vai explodir uma bomba.

Se eu tivesse recebido todos os meus direitos que o Ecad me deve, ou em tese me deve, eu acho que eu teria um padrão de vida um pouco mais confortável. O que a gente vê de repasse de direitos autorais no mundo um artista que estoura uma música praticamente resolve financeiramente a vida dele, embora seja num panorama mundial. Mas o Brasil é um continente, é um país grande, a gente toca em muitos lugares, são muitas rádios. Isso esbarra também em que as rádios são concessões públicas, que não deveriam estar nas mãos políticos e elas estão: vemos um movimento da própria classe política de tentar tirar o pagamento dos direitos autorais das rádios. Então é sempre privilegiando uma minoria que tem o poder e determina o que vai ser e o que não vai ser. Infelizmente a classe artística é muito pouco unida em relação a isso, a gente não vê uma mobilização muito grande para tentar mudar.

Eu gostaria que você falasse um pouco mais sobre o Ecad, porque ele tem esbarrado em várias discussões, inclusive no campo da transmissão de jogos de futebol.

É política cara, a gente está tratando de um assunto político. O Ecad não é muito diferente da relação, por exemplo, da corrupção de verbas públicas direcionadas para escola e saúde. Não existe um combate sério com relação a esclarecer exatamente o que faz o Ecad, quem está recebendo diretamente essas verbas. Começam a aparecer alguns escândalos, ai já começa a observar que estão tentando abafar os casos com outros casos. O Brasil é um país muito desorganizado, eu acho que a gente tem um atraso muito grande em todas as áreas, e na área cultural não é menor o atraso. Ainda mais se você observar que o estímulo à cultura é muito pequeno, as verbas ministeriais para cultura são ridículas e o estímulo para que as crianças e adolescentes consumam a música e o estilo de vida brasileiro é muito pequeno. Acho que eles não entenderam ainda que a base da economia está totalmente conectada com o que você motiva os tipos de desejos nas pessoas. Se você baseia a tua vida em desejos nos estilo de vida americano você vai querer consumir um Nike, uma música americana. Não que isso não seja positivo, acho que existe espaço para tudo, mas acho que é bobagem ignorar o fato de que se você estimula o desejo por coisas nacionais as pessoas vão consumir produtos nacionais.

Você escrevia para o O Dia, eu queria que você falasse dessa participação artística como formador de opinião.

Eu tento fazer um jogo equilibrado, eu sei que eu sou usado e eu procuro usar. Então eu acho que não existe vítima nem algoz nessa história, eu acho que é um mecanismo e grande articulação de um artista é quando ele percebe como funciona um mecanismo e tenta usá-lo a favor do que ele acredita que seja verdadeiro. Então eu durante muito tempo escrevi no jornal O Dia, fui convidado por eles para escrever, e em momento algum eu tive qualquer tipo de orientação de pauta. Eu decidia qual era a pauta e a abordagem, isso gerou uma série de polêmicas dentro do olhar dos próprios leitores até porque o meu ponto de vista é diferente da maioria das pessoas que estão lendo aquilo ali. Mas eu acho que como artista meu papel é plantar dúvida na cabeça das pessoas, plantar questionamento, é usar a mídia como veículo de propagação de dúvidas e não de certezas e verdades.

Acho que é uma grande bobagem da própria elite intelectual que você abrindo mão de aparecer na televisão ou ocupando espaço no rádio você está colaborando ou comercializando a sua arte de uma maneira equivocada. Eu discordo, eu acho que se o Caetano Veloso ou o Chico Buarque, mentes que de alguma maneira trabalharam ou trabalham pela música brasileira de forma inteligente, estivessem ocupando os espaços a gente talvez tivesse oferecendo um pouco mais de qualidade no que a gente cobra. Não dá, por exemplo, você chegar numa comunidade carente onde o estado não se faz presente, onde não tem biblioteca, as pessoas não lêem, são pouco alfabetizados, e cobre que elas tenham um comportamento diferente do que está sendo oferecido. Então é legítimo, por exemplo, que o funk ocupe os espaços e que as pessoas possam se manifestar dessa maneira se essa é a cultura que eles conseguiram agregar nesse meio tempo.

O Brasil é muito grande e muito complicado, mas eu acho que a classe artística é muito omissa. Qualquer relação que mexa com política, grande parte da classe artística não quer se meter, não quer dar opinião, porque isso pode repercutir financeiramente na carreira deles. Hoje em dia não existe uma censura como era na época da ditadura, a censura hoje em dia é econômica. Eu estou até para fazer um vídeo sobre isso, mas devo fazer no momento certo até para não me prejudicar também, porque eu também tenho que saber a hora de oferecer o ataque e a hora de me defender. Mas de modo geral, principalmente a minha geração, tem um papel patético na história política e social que a arte pode representar no Brasil.

Você é um cara politizado e provavelmente se mantém informado no que está acontecendo, eu queria saber como você vê as informações que são disseminadas na mídia.

Eu acho que quando você entende o mecanismo você faz uma pergunta básica quando pega um jornal ou na Tv: a quem interessa essa notícia? A qual grupo interessa isso? Por que está sendo veiculado dessa maneira? É muito estranho que as pessoas não se preocupem com isso, em se questionar para quem que estão escrevendo. Querem atingir quem? Quais são os interesses vinculados a essa notícia? Basicamente é jogo de interesses e as pessoas têm que estar ligadas para saber por que um banco anuncia num jornal tão importante, entendeu?